Nenhum tema justifica tanto a expressão “pisando em ovos” do que a questão racial. E ninguém pisa tão forte nos ovos (sem malizia) no cinema americano do que Spike Lee. Nem que para isso sobre bronca até para as pessoas negras também. No entanto neste “A Hora do Show” (Bamboozled) o ragazzo “fez a coisa errada” (desculpem, non pude resistir) a partir do momento em que quis dar uno tom melodramático ao seu filme em vez de ter continuado com o tom satírico o qual tinha resolvido adotar e que é o mote principal dessa obra.

A idéia non é das mais originais (e nem era para ser). É a vecchia trama do “cara-que-faz-a-coisa-errada-de-propósto-e-se-frustra-porque-a-coisa-errada-deu-certo”. Quem se deu muito bem com esse tipo de trama foi o (judeu) Mel Brooks com seu “Primavera para Hitler”(1968), em que dois picaretas tentam montar una peça de teatro propositadamente ruim e a peça acaba se tornando uno sucesso. 8 anni depois Sidney Lumet faz algo parecido com o filme “Rede de Intrigas” e 22 anni depois (e 2 anni antes do filme do Lee) veio Warren Beatty com a mesma idéia em “Bulworth – Politicamente Incorreto”.

Aqui no Brasile aconteceu algo parecido. Arnaldo Branco propôs uno roteiro de filme satirizando o chamado “favela movie” e otra pessoa, que talvez nem tenha lido o texto dele, faz esse filme aqui. Às vezes a vida real “é mais estranha que a ficção” (parei, parei!)

O que não faz sentido é esse Felipe Neto fazer sucesso

O enredo do filme é o seguinte: Damon Wayans (“Eu, a patroa e as crianças”) é Pierre Delacroix (nome verdadeiro Peerless Dothan) um negro formado em Harvard, com sua assistente Sloan Hopkins (Jada Pinkett, esposa do Will Smith)e que são os únicos funcionários negros de una estação de TV. Seu chefe (Michael Rappaport) é o típico branquelo folgado que acha que pode chamar os negros de “niggers” (experimente chamar uno negro americano de “nigger” se você non é negro) porque “tenho alguns amigos que são e tal”, põe vários quadros de artistas negros na parede de sua sala e que recusa qualquer tentativa de Pierre de fazer um show de TV com negros, que tenha qualidade.

Pierre então resolve radicalizar e fazer uno programa tão ofensivo que o faria ser expulso da emissora (já que se ele mesmo pedisse as contas sairía perdendo) e traria problemas para o seu chefe. Ele e sua assistente resolvem contratar dois artistas de rua (Savion Glover e Tommy Davidson) e fazer com eles uno show de TV igual ao que se fazia antigamente, com atores com a cara pintada de preto, agindo igual tontos, cantando e dançando no palco. Até a ambientação é antiquada (reproduzindo as fazendas antigas do sul escravocrata americano). Os nomes dos artistas são até mudados para “Mantan” (homem bronzeado) e “Sleep-n-Eat” (dorme e come, inclusive são nomes reais de artistas do passado).

Paralelo a isso há Julius ou melhor “Big Blak Afrika”(Mos Def), o irmão de Sloan, que faz parte de uno grupo de rap estereotipado (que acha que a solução dos problemas dos negros é depredar sua própria vizinhança e matar seus desafetos) e que critica a postura da irmã e seu trabalho na TV(mas non deixa de usar as roupas que são anunciadas lá, nem de consumir as bebidas dos anúncios).

Aliás os comerciais falsos que aparecem na película são a cereja do bolo de maldade que o signore Spike confeitou. Principalmente o da grife “Timmi Hillnigger”. É hilário!

Como era de se esperar em uno filme desses, o tiro sai pela culatra e o tal programa de Pierre faz uno baita sucesso, a ponto de gerar una série de produtos inspirados nele (como máscaras de “blackface” e bonequinhos caricatos, como se faziam antigamente ) e fazer com que brancos, asiáticos, italianos e, quem diria, negros, participem da platéia com a cara pintada de preto igual aos personagens do show.


Buono, nem todo mundo gosta do programa. Vários grupos de defesa dos negros e pessoas eminentes da comunidade afro-americana como o Reverendo Al Jackson (interpretando ele mesmo), protestam fortemente contra o programa, e como era de se esperar, a emissora de TV dá as suas respostas-padrão e continua com o show, mais ou menos como aconteceu aqui.

Com o sucesso subindo a cabeça, os nossos personagens começam a mudar de atitude. Pierre esquece da sua intenção original ao sugerir o programa e começa a gostar dele, principalmente quando começa a receber os primeiros prêmios por ele. É aí que de novo, Spike Lee aponta a metralhadora para os próprios negros, pois as cenas em que o produtor recebe as premiações são inspiradas nisso e nisso aqui. Depois que eu vi essas cenas, me lembrei disso aqui também.

O humilde e sonhador Mantan também se ilude com a fama e acaba ficando arrogante e brigão o que causa uno racha no grupo e então ele segue sozinho no show.

E a partir daí que o filme deixa de lado “o plano perfeito” (desculpem) que nos motivou a assistí-lo, que é o seu tom ácido e satírico,  e passa a investir no melodrama. Ao contrário de “Faça a coisa certa”, que é uno filme empolgante do começo ao fim (até onde eu me lembro) em “Garota 6” e neste “A Hora do Show” Lee opta por uno clima melodramático e forçado que acaba por fazer com que o espectador até perca a simpatia que o diretor tinha conquistado nos primeiros dois terços do filme. É o tipo de “forçação de barra” que às vezes o signore Oliver Stone faz também (nada me tira da cabeça que “Assassinos Por Natureza” devia ter sido dirigido pelo próprio Quentin Tarantino, que roteirizou o filme).

O que salva essa parte do filme é a montagem que mostra como filmes e animações antigas satirizavam os negros:

Otra decisão controversa de Spike Lee foi o fato de dirigir o filme inteiro com câmeras digitais comuns (Só as cenas do programa de TV são gravadas em formato convencional). É uno experimentalismo que causa una armadilha para o cineasta e para o diretor de fotografia (aqui no caso é Ellen Kuras), pois vai ter gente que vai elogiar apenas pelo fato de ser filmado em formato digital (“inovador”, “fantástico”) como tem gente que vai odiar apenas pelo fato de ser filmado em formato digital, e aí a desculpa já está pronta (“Nossa, que filme horrível” “Ah! Mas você tem que relevar porque foi filmado em digital e blábláblá”). Realmente non sei o que dizer.

Contudo, mesmo esses deslizes non justificam o desprezo dado a esse filme lá nos EUA. Além de ter sido uno fracasso em termos financeiros (custou 10 milhões de dólares e só deu pocco mais de 2 milhões de retorno), recebeu muitas críticas negativas no IMDB e no Rotten Tomatoes (mais por bronca que os brancos americanos tem com o Spike Lee do que pela qualidade do filme).

Enfim, é uno filme que deveria ser mais visto por essas bandas. Até hoje nunca vi esse filme em DVD (talvez até per causa de seu fracasso comercial), mas ele está na íntegra (sem legendas) no You Tube.

Ainda bem que os negros daqui não tiveram esse tipo de idéia…OH WAIT!

Cotação:

7,5/10 cabeças de cavalo – Se não fosse tão melodramático no final…


Fontes:

http://www.imdb.com/title/tt0215545/
http://en.wikipedia.org/wiki/Bamboozled
http://edition.cnn.com/2000/SHOWBIZ/Movies/10/04/bamboozled/index.html
http://articles.latimes.com/2000/oct/06/entertainment/ca-31994
http://movies.nytimes.com/movie/review?res=9C01E2D9163CF935A35753C1A9669C8B63
http://www.rottentomatoes.com/m/bamboozled/
http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2009/06/02/plotting-against.htm
http://omelete.uol.com.br/cinema/totalmente-inocentes-critica/
http://www.geledes.org.br/racismo-preconceito/racismo-no-brasil/15760-a-certeza-da-impunidade-danilo-gentili-oferece-bananas-a-internauta-negro-pelo-twitter
http://hipersessao.blogspot.com.br/2012/07/frases-da-adelaide-do-zorra-total.html
http://globofilmes.globo.com/conteudo/noticias/interna/OsInocentes1000251.JPG

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