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Bambini, quem diz que non tem preconceito está mentindo. Todo mundo tem preconceito e nontem como negar. Eu tenho preconceito com remakes, sequels e prequels. Eu sei que tudo que é idéia para filme já foi usada anteriormente alguma vez de alguma forma, mas ultimamente parece que “a fonte secou” lá em Hollywood e ninguém mais quer fazer otra cosa que non seja refazer filme antigo ou estrangeiro, ou inventar seqüência para uno filme que foi sucesso, ou contar una história anterior ao filme. O último a embarcar nessa foi o Sam Raimi, que além de ter a sua obra mais importante “refeita” (Evil Dead) ainda se meteu a querer contar “o que aconteceu antes de O Mágico de Oz! CAZZO! PARA QUE ISSO? Prefiro ver Os Trapalhões contando essa história ao seu jeito e com suas peculiaridaes do que essa pataquada de Hollywood.

Non é a primeira, e dificilmente será a última vez em que “O Mágico de Oz” servirá de inspiração para novos filmes. Antes do filme dos Trapalhões, vários filmes foram feitos baseados no filme com a Judy Garland, dentre os quais podemos destacar o bizarro “ZardoZ” com Sean Connery fazendo cosplay de Hernán Barcos e “O Mágico Inesquecível” de Sidney Lumet com Diana Ross fazendo as vezes de Dorothy e Michael Jackson fazendo papel do Espantalho sem cérebro, em uma época em que ele estava longe de ser desmiolado e muito menos assustador (se fosse depois das plásticas, aí sim!), mas nenhum destes filmes é tão peculiar quanto essa pequena obra-prima dos Trapalhões.

Hernán Barcos: #tamoxunto

Nem assim o Michael Jackson conseguia assustar mais do que depois das plásticas

Para começo de conversa, o filme é baseado em uno argumento do saudoso Arnaud Rodrigues (responsável pela trilha sonora do filme e que fazia o papel de “Coroné Totonho” e de “Povo Brasileiro” em “A Praça é Nossa”), que foi transformado em uno roteiro escrito a DEZ MÃOS incluídas as do ator Gracindo Júnior(!) e as de Renato Aragão e Dedé Santana (que divide a direção desse filme com Vítor Lustosa). “Massa que todo mundo mete a mão sempre desanda” o que non é diferente com relação a esse filme.

Além disso, apesar de ser una comédia, o filme procura fazer uno pocco de denúncia social ao mostrar as mazelas da seca do Nordeste. Non que una comédia nonpossa fazer crítica política (aliás humor e crítica política sempre estiveram ligados), mas há sempre o risco de se fazer algo superficial, o que non é diferente aqui neste filme. O que é certo é que, a denúncia de “O Mágico de Oróz” com certeza atingiu mais pessoas do que a dos filmes do “Cinema Novo” que até hoje permanecem restritos a uno grupo muito seleto de pessoas, mas isso é assunto para otro post.

O filme começa com Didi sendo atirado de uno “estilingão” para ver se consegue pegar algum urubu para o almoço dele e de seus amigos interpretados por Arnaud e por José Dumont, que tem muito mais filmes no currículo que Selton Mello, e com as mortes de Wilson Grey e José Lewgoy, deve ser o ator brasileiro vivo que mais vezes apareceu no nosso cinema.
“Que bonita sua roupaaaa!”

Os três resolvem partir para Oróz (cidade famosa do Ceará) levando a casa em cima da carroça atrás de comida e água. No caminho eles trombam com duas figuras interessantes. Una delas é o Espantalho sem cérebro, chamado de “Passoura” (palhaço+vassoura) por Didi e interpretado por Zacarias, que guarda uma plantação que non existe mais (foi destruída em uma queimada) e é alvo dos carcarás liderados por Tony Tornado (que protagoniza uma das melhores seqüências musicais do cinema brasileiro nesse filme). Depois que o trio se livra dos carcarás, Zacarias se junta a eles com a promessa de que em Oróz ele conseguirá um cérebro.

A cena dos carcarás com una trilha mais moderna:

A otra figura é o Homem de Lata sem coração, interpretado por uno hilário (como sempre) Mussum socado em uno tonel de cachaça (que é seu sangue) e que se junta ao grupo com a promessa de conseguir uno coração em Oróz. Fico imaginando a indignação dos gringos vendo nesse filmeuno homem negro fazendo o papel de uno bêbado sem coração, que se veste com uno barril de cachaça. Devem chamar o filme de racista para baixo.

Chegando em Oróz nós somos apresentados ao terceiro personagem que compõe o trio original do universo de Oz: O leão covarde, interpretado por Dedé Santana, e que ironicamente é o delegado da cidade, mas não se enganem: ele só é valente com aqueles que são mais fracos que ele e se pela de medo do Coronel da cidade, interpretado pelo sempre genial Maurício do Valle (que protagonizava tanto os filmes “cabeça” do Glauber Rocha quanto filmes “populares” do Adriano Stuart, com a mesma dignidade). Arrisco dizer que o Delegado Leão é o personagem mais forte e carregado de simbolismos de todo o filme (non nos esqueçamos que o Dedé roteirizou e dirigiu o filme).

O delegado é apaixonado pela professorinha da cidade, interpretada por Xuxa Meneghel, em seu primeiro papel falado em una produção infantil (ela aparece em “O Trapalhão na Arca de Noé”, mas não abre a boca). Ela gosta dele também, mas o acha frouxo demais por não enfrentar o Coronel, que oprime a população e só distribui água àqueles que podem pagar por ela e tenham título de eleitor (já era tempo de abertura política e as pessoas tinham voltado a votar).

Ao chegar à cidade, logo Didi e sua trupe se metem em confusão ao roubar comida de unamercearia (cujo dono é o “Sargento Pincel”) e acabam sendo cercados na escolinha pelo Delegado Leão e sua tropa. Depois de tomar una bronca da professorinha, Leão tenta mostrar que non é covarde e resolve encarar uno deles com as mãos nuas e escolhe justamente aquele que faz mais papel de frouxo na hora, que é o Didi.

É interessante notar que muito tempo antes do Jackie Chan transformar a “lutinha com cambalhota” em “modinha”, Didi e Dedé já faziam algo “parecido”, mas com influência do “telecatch”, da luta-livre e non do kung fu.

Interessante reparar que o Leão só ganha a luta se aproveitando de uno momento de distração do Didi, que se distrai ao beijar a mão de uno padre, o que só reforça a idéia de que o verdadeiro covarde non é o que tem medo, mas o que ataca de forma traiçoeira.

Depois de serem julgados por una dupla de repentistas (uno fazendo a acusação e otro a defesa), a turma é condenada, sendo que o Arnaud e o Dumont ficaram presos em Oróz e o trio Didi, Dedé e Mussum tem que ir buscar água para a cidade, escoltados pelo Dedé.

O trio convence Dedé a ajudá-los a roubar água da propriedade do Coronel. E aí acontece algo que non consigo entender. O quarteto tem uno baita trabalho de se disfarçar de capangas da fazenda, derrubam o Coronel dentro do açude E NON LEVAM A ÁGUA EMBORA! Depois de todo trabalhão que tiveram? Tudo bem que tem dois sapos enormes que tomam conta do açude, mas non fica claro no filme que a turma desistiu de pegar água por causa dos bichos. Uno problema de edição que compromete o entendimento do filme.

Andando pela caatinga, os quatro encontram uno beato (o saudoso irmão do Dedé, Dino Santana) que lhes recomenda irem procurar o Mágico de Oróz (Dary Reis, que era presença constante no programa dos Trapalhões) a fim de encontrar água.

Ao encontrar o Mágico, eles se decepcionam, pois ele diz que nem um mágico charlatão é capaz de resolver o problema da seca e diz que eles devem procurar uno monstro de ferro que solta água pela boca (nada mais que uma torneira gigante). Ao sair da caverna do Mágico, o quarteto se depara com o Coronel e seus capangas e para poder derrotá-los, Didi recebe do mago uno “osso mágico” que ele usa para dar una surra nos vilões (o mais lógico era que o Dedé tomasse coragem e desse essa surra, mas o Didi achou que na condição de diretor, roteirista e namorado da Xuxa ele já tava com moral demais e resolveu ele mesmo ser o astro dessa vez).

“Mas por que que o Didi usa um osso mágico?” Ora, para protagonizar a melhor referência a “2001: Uma odisséia no espaço” já feita na história do cinema.

Toca até “Assim Falou Zaratrusta”

O quarteto pega carona no osso mágico, vai parar no Corcovado e aí nós deparamos com a primeira interação entre Didi e o Cristo Redentor antes dele ter a idéia de subir na mão da estátua e jogar pétalas de flores de lá de cima. Parece que o Didi em mais de 20 anos de Rio de Janeiro nunca tinha visto o Cristo, tamanha a breguiçe e o deslumbramento dele frente ao monumento (non que non seja digno de deslumbramento, mas o Didi exagera).

“Porra Didi!”

De lá de cima eles vêem o tal monstro que solta água pela boca e resolvem ir até ele e aí nós temos uma amostra genuína de como funciona o cinema brasileiro. A Caloi, a Petrobrás Distribuidora e a Olympikuspatrocinaram o filme, passou-se mais de uma hora e nada das marcas aparecerem (até porque seria muito difícil mostrá-las no meio do sertão nordestino), o que fazer? Enfiá-las aleatoriamente no filme na última meia-hora.

Para chegar à torneira, os Trapalhões roubam as bicicletas de una equipe de ciclistas patrocinada pela Caloi (cujo logo aparece bem destacado no filme) e são perseguidos pelos ragazzos em una seqüência, bastante animada, graças à música-tema, mas que serve mais para encher linguiça e como desculpa para o quarteto fazer suas macacadas de sempre e para expor a marca do patrocinador.

Durante a perseguição, o quarteto vai parar em uno posto de gasolina da Petrobrás e derrubam uma pilha de latas de óleo Lubrax (produto da Petrobrás Distribuidora) e começam una bagunça que, de novo, só tem como intenção as mesmas cosas citadas na cena anterior.

Chegando nas torneiras, os Trapalhões começam a brigar com as lavadeiras que estão lá com suas trouxas de roupa, a fim de conseguir roubar a “mãe de todas as torneiras”, a maior de todas e que eles acreditam que vai solucionar o problema da seca na cidade. Se por uno lado non tem nenhuma marca para ser mostrada nessa seqüência, por otro é mais una oportunidade do quarteto protagonizar uma cena de briga bem anárquica que é bem característica de seus filmes e de novamente encher bastante linguiça.

E agora? Como voltar para casa? O Mágico lá na distante Oróz, vendo os nossos amigos através de una bola de cristal, providencia uno “carro em forma de tênis” e aí temos mais uno número musical e mais uno patrocinador satisfeito. 

Ao chegarem em Oróz, acontece o anti-clímax da história: obviamente a torneira não funciona e Didi, Dedé e Mussum são submetidos a uma espécie de instrumento de tortura medieval que parece uno engenho de cana de açúcar onde eles vão pendurados com o Dedé puxando, de viseira e cangalha como uno burro-de-carga (detalhe: o filme entrou em cartaz no ano anterior ao fim oficial da Ditadura no Brasil). Depois de muito suplicarem, eis que cai una chuva redentora que liberta nossos amigos não só da prisão física, mas também de suas limitações pessoais e todos se tornam gente de verdade, com cérebro, coração e coragem.

Destaque para o Didi Mocó acertando uno bolo de barro na cara do Coronel e rachando o bico quando ele cai do cavalo e o Dedé beijando a Xuxa no final (lembrem-se que ele roteirizou e dirigiu esse filme, o único que eu me lembre dos Trapalhões em que ele fica com a mocinha). Quando vocês a virem na TV dizendo que seu primeiro beijo no cinema foi no Sérgio Mallandro, saibam que é mentira.

Pode ser que o meu preconceito seja besta e que o filme do Sam Raimi seja muito bom, mas sem dúvida a proposta dos Trapalhões é bem mais ousada, não só por tentar conciliar crítica social com humor mambembe, mas por tentar adaptar o universo de Oz, às particularidades de seus integrantes que aquela altura já eram muito bem conhecidas e consolidadas. Como tudo que é ousado, o risco de dar tudo errado é maior, é como passar o filme todo andando em una corda bamba, cosa que está faltando em Hollywood, que prefere investir em remakes, sequels e prequels que seriam em tese sinônimo de lucro fácil. Vale lembrar que Francis Ford “DIO SANTO” Coppola fazia parte daquela turminha mais “rebelde” que apareceu nos anos 60 e que queria fazer filmes de forma diferente da indústria de então.

“Ah, mas o cinema dos Trapalhões é o que tinha de mais industrial e conservador no nosso cinema. Um filme por ano a toque de caixa, estilo linha de montagem.” Para você ver como eu tô com tão pouca paciência com Hollywood ultimamente. Até uno filme da nossa velha indústria nacional parece mais interessante que o que se faz hoje nos EUA. Confio no Sam Raimi e posso estar errado, mas confesso que non me empolguei ainda para ir ver “Oz: Mágico e Poderoso” (apesar que o 3D parece lindo para caramba). Se eu for e gostar, lhes aviso.

Quem quiser ler una crítica melhor e mais densa sobre esse filme e sobre otros filmes dos Trapalhões, clique aqui.

O filme inteiro, bem como otros filmes dos Trapalhões estão disponíveis aqui.

(Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, Brasil, 1984) De Vitor Lustosa e Dedé Santana. Com Didi, Dedé, Mussum, Zacarias, Xuxa, Arnaud Rodrigues, José Dumont, Maurício do Valle, Dary Reis, Dino Santana.



Cotação:


6,5/10 cabeças de cavalo – Melhor que ficar fazendo prequel.  
Fontes: 
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