Conforme vocês pediram nos comentários do post anterior, esta semana vamos analisar essa obra prima de Peter Jackson. Este filme é mais uno exemplo de que mesmo uno filme “barato” pode se tornar uno clássico e como tal servir de influência para muita gente. Non é a toa que eu afirmo que “Fome Animal” tornou-se o cartão de visitas de Peter Jackson (é certo que ele ainda faria vários otros filmes antes de dirigir a Trilogia do Anel, mas sem dúvida “Fome” é muito mais citado do que qualquer filme anterior a saga de Tolkien) e é uno dos melhores filmes de todos os tempos, non só de terror, pois apesar do gore, é una excelente metáfora sobre a ruptura do cordão umbilical e a entrada na vida adulta.
O mais impressionante de “Fome Animal” (“Braindead” na sua terra natal, Nova Zelândia; “Dead Alive” na América do Norte) é que até a metade do filme você acha que é apenas uno filme grotesco de terror, com mutilações, cenas nojentas, feridas expostas, tripas voando etc. Mesmo a caracterização dos personagens contribui para isso, pois são personegens muito planos: Lionel (Timothy Balme, que fez “Um gênio Jack Brown”, roteirizado por Peter Jackson) é o típico filhinho da mamãe, megera e dominadora, Vera Cosgrove (Elisabeth Moody, que aparece em una versão extendida de “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”). Paquita (Diana Peñalver, nada a ver com Xuxa, grazie a Dio) é a típica mulher romântica e sonhadora cujo caminho vai se cruzar com o de Lionel e transformá-lo radicalmente e também os personagens secundários como a vó de Paquita ou o tio de Lionel são bastante clichês. O filme se revela a partir da sua segunda metade, depois que Lionel resolve manter vários zumbis no porão de casa  do que dar cabo deles de una vez (aliás o porão e o sótão da casa tem papel fundamental na história)

A mãe de Lionel Cosgrove em una cena de “O Senhor dos Anéis: A sociedade do Anel”

O mérito disso deve ser atribuído non só a direção de Peter Jackson, masa também ao roteiro escrito por ele em parceria com sua esposa FranWalsh (que é parceira de roteiro de Jackson desde “Meet the Feebles” e faz una ponta em “Fome”) e baseado em uno argumento de Stephen Sinclair (que roteirizou também “O senhor dos anéis: As duas torres”).

Fran Walsh em “Fome Animal” 
Peter Jackson como caçador no início do filme
e Peter Jackson depois, como assistente de embalsamador

A premissa é muito simples: Paquita trabalha na venda do pai e sonha em encontrar seu príncipe encantado. De acordo com sua vó, que joga tarô, o sinal que apontará qual o homem certo para ela é una lua e una estrela, a que ela por uno acidente associa com Lionel. Uno dia eles resolvem ir ao zoológico e são perseguidos pela mama dele, que acidentalmente é mordida por uno macaco-rato da Sumatra, que tem sua cabeça esmagada a pisões pela vecchia

Depois da mordida, a signora começa a apresentar reações estranhas como “se desmanchar” e chega ao ponto de comer inteiro o cachorro de estimação de Paquita (a propósito, o título do filme na Espanha é “Tu madre se ha comido mi perro” SUA MÃE COMEU MEU CACHORRO). Depois de causar algunos transtornos, a vecchia morre, mas non morre, pois virou una zumbi e de quebra ainda mordeu a enfermeira e a transformou em zumbi também. Lionel em vez de pedir ajuda a Paquita e acabar com a raça das duas, mente para a ragazza e esconde as mortas-vivas no porão (e isso se torna o seu “esqueleto no armário”). Aí que está o grande mote do filme.

Ecco, enquanto a maioria das pessoas apontam a signora Cosgrove como a grande vilã do filme, eu afirmo que esse papel na verdade é desempenhado pela frouxidão de Lionel. Ele se acovarda ao non assumir de cara para a mãe seu interesse por Paquita, ele se acovarda ao esconder a mãe e a enfermeira zumbis no porão, se acovarda ao esconder otros zumbis no porão, se acovarda ao non dar uno chega pra lá no tio interesseiro que só aparece depois que a mama morreu e quer abocanhar a herança… enfim,  o ragazzo só resolve tomar una atitude de homem depoios que a situação já fugiu de seu controle (e fugiu do controle por causa dele)

Como sua mãe non “morreu” de verdade, Lionel tem que dar várias injeções de tranquilizante na vecchia para que ela non saia por aí matando e comendo gente, porém chega uno momento em que non tem mais como esconder das pessoas que ela morreu e ele resolve enterrá-la, mas non sem antes tentar dar una injeção na vecchia no dia do velório e passar por uno baita constrangimento.

Non satisfeito, o ragazzo vai até o túmulo de sua mama para desenterrá-la para poder mantê-la sob controle. O que ele non contava, era com unos ragazzosrockabilly (o filme se passa em 1957), que o encontram tentando desenterrar a vecchia e lhe dão uma surra. O que eles non contavam é que mesmo morta(viva)a mãe de Lionel continuaria defendendo seu figlio. A mulher levanta da tumba e ataca os ragazzos, transformando-os em zumbis e despertando o padre McCruger (Stuart Devenie, o curador do museu em “Os Espíritos”, também de Jackson) , simplesmente o padre mais perigoso de todos os tempos, mais até que o padre irmão do Machete, pois mesmo desarmado, consegue dar cabo de uma gangue inteira de mortos vivos apenas com golpes de KUNG FU. Não duvido nada que esse padre non tenha inspirado esse filme aqui.

Mas mesmo sendo unopadre casca grossa, ele acaba sendo mordido pela cabeça de uno zumbi (!) e vira zumbi também. E o quê que Lionel faz? Acaba com ele? Non! Leva ele, sua mãe e uno dos rockabillies e cuida de todos os zumbis como se fosse uma ninhada de cãezinhos em vez de perigosos mortos-vivos, com direito a mingau na boquinha e tudo. Para piorar, a enfermeira e o padre se reproduzem e tem uno BEBÊ ZUMBI, una das criaturas mais bizonhas da história do cinema e que protagoniza unadas melhores cenas de toda a filmografia de Peter Jackson.

Como desgraça pocca é bobagem, com a morte da mãe de Lionel, seu tio Les (Ian Watkin que fez a voz do COO2180 em “Star Wars Episódio II”), aparece do nada e resolve pedir parte da herança. Como o tio é intrometido, ele acaba descobrindo os cadáveres (non sabe que os mortos estão bem vivos) e ameaça chamar a polícia caso Lionel non divida a “fortuna” da Sra. Cosgrove com ele. Se fosse o Ash de “Evil Dead” iria aproveitar uno momento de distração do gordo e matá-lo, mas o frouxo Lionel acaba cedendo.

Como todo folgado que se preze, o tio de Lionel chama uno monte de gente para una festa na sua nuova casa e ainda por cima dá em cima de Paquita, que foge do escroto e vai parar no porão da casa e descobre toda a verdade. Como é mais macho que Lionel, convence-o a injetar veneno nos zumbis e enterrá-los de vez, mas por causa de uno rótulo mal colocado, ele acaba injetando estimulante animal, tornando os zumbis ainda mais fortes e incontroláveis, obrigando Lionel a finalmente tomar uma atitude.

O legal do protagonista usar uno cortador de grama como arma é que o mesmo apareceu pela primeira vez no filme de forma bastante despretensiosa na primeira vez em que Paquita vai visitá-lo em casa, convencida de que ele é o amor de sua vida e mais de uma hora depois ele retorna como arma de guerra (non podemos nos esquecer do procesador de alimentos, que vira triturador de zumbis)

O massacre zumbi de “Fome” pode non ser o melhor de todos aqueles já vistos no cinema (a concorrência é grande), mas sem dúvida é uno dos mais criativos. Quantas vezes você já viu una cabeça de zumbi servir como lanterna de halloween? Ou tripas com vida própria que atacam as pessoas? (partes do corpo com vida própria já non eram novidade desde “Re-Animator”, mas tripas eu non me lembrava de ter visto)

Tão impressionante quanto as formas inovadoras de se devorar e matar gente, são os caminhos que o roteiro toma a partir de agora (SPOILERS): Lionel vai parar no sótão de casa e lá ele descobre em uno baú antigo, unas fotos de seu pai com otra mulher e uno esqueleto (literalmente uno “esqueleto no armário”) e passa a se lembrar do que realmente aconteceu com seu pai que ele julgava ter se afogado acidentalmente. Na verdade ele foi afogado junto com a amante em una banheira pela signora Vera na frente de Lionel, cujo trauma foi tão forte que ele se esqueceu de tudo.


Sua mãe morta emerge de sua nova cova, gigante, mais grotesca e muito mais forte para travar una batalha com Paquita e pegar de volta seu filho, que ela traga para dentro de sua barriga novamente (o que ela gostaria muito de fazer em vida se pudesse), mas Lionel consegue fugir abrindo a pança da vecchia com o amuleto de lua e estrela que Paquita lhe deu e saindo para fora dela em una espécie de “novo parto” (é incrível a quantidade de metáforas visuais desse filme). A vecchia morre de vez incendiada em sua própria casa e o casal finalmente encontra a felicidade (FIM DO SPOILER).

É por essas e otras que “Fome Animal”, apesar de ter pocco mais de 20 anos já virou clássico e até hoje  é referenciado em vários otros filmes, principalmente do próprio Peter Jackson. O cânion utilizado em “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, na parte dos “Paths of the Dead” é o mesmo que aparece no início de “Fome”.

A “Ilha da Caveira” é a mesma ilha fictícia lar do King Kong no filme original em 1933. Na versão de Peter Jackson, em uno dado momento aparece una jaula com a inscrição “Rat Monkey Sumatran” em referência à sua primeira obra-prima.

Enfim, Peter Jackson é uno ragazzo que pode dizer com todo orgulho que já mandava zumbis para o inferno antes disso virar modinha (assim como Roger Corman, Dan O’Bannon e Lucio Fulci). Espero que ele non faça como o Sam Raimi fez com “Evil Dead” e non autorize uno remake dessa obra (ninguém sugeriu ainda que eu saiba, mas vai que…)

O filme inteiro está disponível no You Tube em inglês e em português (também abaixo):



Cotação
8/10 cabeças de cavalo – Melhor do que aguentar o Lobão e Roger

Fontes:
www.imdb.com
http://www.starwarsautographcollecting.com/Autographs/LordoftheRings/ElizabethMoody2.jpg
http://www.c1n3.org/j/jackson01p/Images/1992%20Braindead%20Tu%20madre%20se%20ha%20comido%20a%20mi%20perro%20(fra).jpg
http://www.freddyinspace.com/2013/03/friday-fun-fact-32213.html
http://www.tumblr.com/tagged/braindead

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