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NOTA: Tomarei a liberdade de abandonar o sotaque por agora por conta da seriedade do assunto e para evitar ser mal interpretado. Espero não ter que fazer isso sempre.

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Esse pôster seria proibido hoje em dia?`

Nas últimas semanas, por conta de um caso de estupro coletivo, que ganhou repercussão até fora do Brasil, tem se realizado um intenso debate em que dois lados vem se colocando de forma bastante antagônica (uma tendência que foi abordada no último vídeo de nosso canal): De um lado um grupo afirmando que “todo homem é um estuprador em potencial” e de outro, quem defende que se deve individualizar a culpa e punir severamente este(s) indivíduo(s) que cometem estupros.

Você pode não acreditar, mas no final da década de 80 Charles Bronson fez um filme que parecia estabelecer um ponto de convergência entre essas duas visões, mas como era um filme da Cannon no fim das contas descambou para uma pataquada casca grossa que só aquela época era capaz de produzir.

Em Kinjite, Bronson é um policial durão, pouco afeito aos regulamentos e pai de uma adolescente muito bonita, o que faz com que fique mais preocupado em combater uma rede de prostituição em Los Angeles, que agencia menores de idade para milionários (e milionárias), os quais você não imagina que sejam pedófilos e pedófilas.

vlcsnap-2016-06-06-21h01m28s201Uma das vítimas dessa rede é a filha de um executivo japonês transferido para a sucursal americana de sua empresa e é a presença deste que faz com que a trama seja um tanto diferente do que costumamos ver nesse tipo de filme.

vlcsnap-2016-06-06-20h58m51s180.pngIsso porque quando estava no Japão ele presenciou em um metrô lotado uma colegial sendo assediada sexualmente por mais de um adulto sem protestar, pois para a mulher japonesa admitir que foi assediada seria mais constrangedor do que o ato em si.

vlcsnap-2016-06-06-17h07m23s64vlcsnap-2016-06-06-17h06m19s181vlcsnap-2016-06-06-17h06m30s46vlcsnap-2016-06-06-17h07m06s152Ao chegar nos EUA, depois de tomar umas e outras ele resolve repetir o ato em uma colegial que estava cantando uma música safadinha (o que não justifica o abuso e nem quero dizer que por ela cantá-la estava pedindo por isso e não, não era funk carioca), só que as americanas não são submissas como as japonesas e ela fez um escândalo dentro do ônibus em que estavam, do qual ele foge à francesa sem ser justiçado. Reparem que mesmo o pai de uma menina sequestrada por uma rede de pedofilia também é um abusador. Um estuprador não é necessariamente um monstro alienígena e sim, alguém como eu ou você.

É notável também a forma como a filha do japonês naturaliza o machismo com que o pai trata a mãe, que segundo ele é frígida e não cumpre com as obrigações de mulher.

Junte isso ao desdém com que o chefe de Bronson trata o relato dele de que sua filha foi abusada no ônibus.

E o modo como uma adolescente resgatada no início do filme relativiza a exploração por parte de seu cafetão, já que seu padrasto lhe abusou primeiro.

Ah, então o filme é feminista? Não galera, é um filme da Cannon, que fez fama na base dos filmes de ação badass com Chuck Norris e Charles Bronson (justiça seja feita, também fizeram “Othelo do Franco Zeffirelli e “Barfly”, baseado na obra do Bukowski, fora outros filmes cults).

vlcsnap-2016-06-06-19h13m02s176.pngA personagem feminina mais ativa aqui talvez seja a mulher do personagem de Bronson que o repreende por atrapalhar o namoro da filha, que estuda em colégio católico, com um jovem atleta. É um filme permeado mais por uma moral católica do que por ideais feministas.

Por falar em moral, o filme dá a entender que o cíume do personagem de Bronson tem um caráter meio incestuoso, porém isso não é explorado no filme, o que é uma pena, pois renderia uma obra muito melhor ao estilo de um filme de Paul Schrader. Será que ele faria mal à própria filha?

O roteirista desse filme é Harold Nebenzal, que fora produtor associado do remake americano de “M, o vampiro de Dusseldorf” (que tem um pouco a ver com nosso filme aqui), do clássico “Cabaret” e produziu a versão cinematográfica de “Gabriela” com Sônia Braga e Marcelo Mastroianni. Também roteirizou outros filmes mais desconhecidos, mas tinha mais experiência como produtor

vlcsnap-2016-06-06-17h14m01s144.pngEm determinado momento o executivo japonês vai à casa de Bronson, pois este se responsabilizou trazer de volta a sua menina. Na residência ele encontra com a filha do policial QUE É JUSTAMENTE A COLEGIAL QUE ELE ASSEDIOU NO ÔNIBUS. Imagine como DePalma trabalharia essa tensão. E pense como o monstro pode estar mais perto do que você imagina.

No entanto, o veterano diretor J.Lee Thompson (responsável pela versão original de “Cape Fear” e indicado ao Oscar de melhor diretor por “Os Canhões de Navarone”) em seu filme de despedida preferiu fazer um filme comum de justiceiro urbano, tal como tinha feito com Bronson em “Desejo de Matar 4” (franquia em que os estupradores são punks estereotipados em vez de homens comuns) e no memorável “10 minutos para morrer”, sobre um assassino de mulheres bonito e sedutor demais, ou seja, um monstro em vez de um homem comum. Todos esses filmes, bem como “Kinjite” foram resenhados no excelente blog FILMES PARA DOIDOS.

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Tem até Danny Trejo no filme!

Para você ter uma ideia do nível da coisa, em um trecho do filme o, até aquele momento, suspeito de cafetinar menores oferece um relógio caríssimo para Bronson com a condição de que ele pare de investigar. O policial o obriga a engolir o suborno e ao final dispara a seguinte pérola:

vlcsnap-2016-06-06-17h19m19s61.pngOutro trecho que vai ao encontro de quem pede punições mais severas para estupradores ocorre logo no começo quando Bronson e seu parceiro frustram um encontro entre um milionário e uma menor de idade e ele pega um pênis de borracha para fazer com que ele sinta na pele o que a garota sentiria, algo que remete ao que acontecerá ao final do filme (SEM SPOILER).

vlcsnap-2016-06-06-16h10m11s184.pngEnfim, para quem esperava um novo “Desejo de Matar”, “Kinjite” é mais do que isso porém não muito mais. Tem o lado da justiça a qualquer preço, porém à sua maneira, um tanto torta, nos mostra que todo homem é um estuprador em potencial. Cabe também lembrar que todo homem tem potencial para ser falsamente acusado de estupro, como nos mostra o filme norueguês “A caça”, mas isso é um assunto para um próximo texto (sabe-se lá quando).

O filme está disponível no YouTube (em inglês, sem legenda)

Cotação:

3/5 cabeças de cavalo – Melhor que escrever textão no facebook.

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